Toda discussão é válida?
- Luiz Borges
- 14 de mar.
- 3 min de leitura
Atualizado: 16 de mar.
A pergunta "Qual o limite da liberdade de expressão?" admite diversas respostas, muitas das quais não possuem um nível razoável de qualidade no discurso. Respostas como, por exemplo, "A liberdade de expressão vai até esbarrar na liberdade do outro" representam um desfavor à discussão séria, pois quase nunca são respaldadas por uma linha de raciocínio complexa e bem fundamentada. Não passam de frases de efeito, frequentemente imbuídas de uma ideologia capenga. Por outro lado, o argumento de que a liberdade de expressão deve ser irrestrita também carece de uma boa fundamentação por parte da maioria de seus interlocutores. Muitas vezes, a argumentação se perde e adentra o paradoxal mundo da lógica.
Apesar de tender a concordar que a liberdade de expressão deveria ser irrestrita, reconheço os problemas e contradições desse pensamento. Meu intuito aqui é reduzir essa questão a um nicho bem específico: o da discussão de ideias.
Pensar requer esforço. Nenhuma ideia é boa o suficiente se não for pensada, revisada e discutida. Para isso, ela deve ser apresentada à comunidade. É nesse ponto que reside o meu grande temor: por medo de um linchamento social, vamos nos tolher de formular nossos próprios pensamentos e, então, colocá-los à prova em uma discussão civilizada? Grande parte das teorias humanas mais importantes foram transgressoras, mas vivemos em uma época na qual ideias transgressoras só são bem vistas se não transgridem a ideologia vigente. Opiniões precisam estar em conformidade ideológica com o seu meio, caso contrário, o indivíduo será tratado como um proscrito. O mundo acadêmico, outrora um ambiente de livre pensamento, hoje não passa de um nicho ideológico rasteiro. Tenho profunda pena dos livres pensadores. Com toda certeza, não conseguiriam uma bolsa de estudos.
O que seria de Freud, Darwin ou Nietzsche nos dias atuais? Todas as suas ideias foram transgressoras. Transgressoras a ponto de influenciarem toda uma cultura posterior. Pergunto-me se eles conseguiriam mostrar ao mundo seus feitos caso suas palestras fossem interrompidas por pessoas de cabelo roxo e acima do peso. Brincadeiras à parte, não precisamos recorrer ao século passado para ilustrar esse argumento.
Dentre os pensadores atuais, um dos mais relevantes é o psicólogo canadense Jordan Peterson. Seu boicote começou quando um vídeo foi gravado no qual ele combatia a ideia do uso obrigatório de pronomes ditos inclusivos. O combate à mudança da linguagem foi apenas um detalhe, até então, em sua carreira. Suas aulas sobre simbologia, literatura e psicologia já estavam disponíveis para o mundo. Atualmente, ele é rotulado como fascista, racista e outras coisas mais — e tudo começou por sua ousadia em questionar a implementação de leis para a mudança impositiva da linguagem. Felizmente, Peterson conseguiu sobreviver ao linchamento. Ele possuía o arcabouço intelectual para sustentar suas ideias e não se dobrou. Então, as perguntas que restam são as seguintes: ele não deveria ter ousado questionar? O que aconteceria com esse professor caso não conseguisse superar as críticas? E se esse caso ocorresse com uma pessoa dita "comum", como ela enfrentaria esse obstáculo?
Não precisamos ir tão longe para exemplificar o argumento. Dentre os produtores de conteúdo que acompanho, está a "booktuber" Tati Feltrin. Por gostar de ler, costumava assistir aos seus vídeos sempre que possível. Muitos deles não gostei, muitos outros adorei; concordei com alguns e discordei de outros. Simples assim. Toda vez que não concordava com algo, após o término do vídeo, ia tomar meu café e seguir com meus afazeres, sempre sabendo que voltaria para um novo episódio na semana seguinte.
Tati Feltrin, acredito eu, levou sua profissão com muito carinho até o fatídico dia em que ousou fazer uma análise do famigerado livro O Imbecil Coletivo. Em seu vídeo, a produtora de conteúdo expressou seu contentamento para com Olavo. Felizmente, não sou famoso e não tenho patrocínios que limitem o que posso dizer, diferentemente de Tati Feltrin. Nesse episódio, ela não apenas perdeu patrocínios, parcerias e público, como também foi insultada da maneira mais vil. Pobre Tati... felizmente sobreviveu e continua produzindo conteúdo. Palmas para ela.
Pensar livremente é um risco. Com toda certeza, pode-se perder amizades; em casos mais graves, pode-se perder dinheiro. Note que, caro leitor, não confunda minha argumentação como uma defesa em prol da irrestrita de expressão. Não é isso que estou trazendo aqui. Trago apenas uma reflexão sobre a liberdade de debate em um nível civilizado. Somente isso.
Mas voltemos à pergunta inicial: "Toda discussão é válida?" Se não forem, deveriam ser. Simples assim. Nenhuma ideia é tão boa que não precise passar pelo crivo do questionamento. Da mesma forma, nenhuma ideia é tão ruim que não deva ser submetida à reflexão. Diga-me uma proposição que considere ruim, e eu lhe direi outras dez argumentando sua beleza. Diga-me uma ideia que considere boa, e eu lhe oferecerei outras vinte a criticando. Mas, para que esse processo de engrandecimento ocorra, não podemos ter receio de pensar livremente.

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