Por que brincamos com o niilismo?
- Luiz Borges
- 13 de mar.
- 2 min de leitura
"Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem." Talvez seja o início mais impactante de um livro em toda a literatura ocidental. Com apenas uma frase, o autor Albert Camus conseguiu expressar o mais puro niilismo. Não precisamos ser especialistas em comportamento humano para perceber que esta frase traz consigo uma das coisas mais abomináveis para o senso comum: a indiferença para com o amor maternal.
Neste romance sublime, Meursault, o protagonista, nos revela uma personalidade intrigante. Não amava seu trabalho, mas também não o odiava. Passava o dia sem qualquer expectativa. Não era feliz. Não era triste. Era o supra-sumo da personificação niilista. Nunca chegou a ser o super-homem; sucumbiu à violência no segundo tiro. Tiro este, que perturbou o silêncio do mundo.
Foi julgado por seu niilismo e não por sua violência. Desprezado por sua visão de mundo e não por seus atos. Já não era um "absurdista", era apenas um estrangeiro em nosso mundo.
A pergunta que vos faço, caros leitores, é a seguinte: até que ponto conseguimos brincar de niilismo sem que isso se torne uma patologia clínica? Seria possível viver a filosofia de nosso amigo Meursault? Viver apenas na contingência, aceitando que não há sentido?
Não consigo fornecer uma resposta.
Tendo a acreditar que o niilismo puro se assemelhe a uma condição mental e não a uma escolha. Para viver o niilismo, é de fato necessária uma estrutura mental diferenciada. Ser niilista não se trata apenas de entender o seu conceito; é preciso sentir a indiferença e ainda ser indiferente a ela.
Brincar de niilista é fácil. Basta pegar um sujeito de classe média, dar-lhe um repertório de duas páginas de filosofia pessimista e pronto: o sujeito passará o dia em seu quarto refletindo sobre a existência e, com toda a certeza, se achará especial por isso. A brincadeira de ser niilista acaba quando se tem boleto para pagar. Porém, acaso a brincadeira continue mesmo com as responsabilidades do mundo, muito provavelmente o ser em questão precisará tomar um Prozac de tempos em tempos.
Dito isso, tendo a acreditar que não seja possível viver a filosofia de Nietzsche sem adoecer. Se, por um lado, já nos encontramos na presença da angústia, o niilismo só irá justificar nosso estado; por outro, se começarmos por interiorizar o niilismo e refletir sobre ele, a angústia pode aparecer. Viver na desesperança não é um ato trivial com o qual deveríamos brincar. Viver na desesperança, sendo indiferente a ela e, ainda assim, tendo um êxtase pela vida, só é possível para um homem acima do homem. Um homem para além do bem e do mal.
Um homem que, com toda a certeza, você não é.
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