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Meu presidente

  • Foto do escritor: Luiz Borges
    Luiz Borges
  • 25 de mar.
  • 4 min de leitura

Hoje acordei cansado. Não tinha objetivo no dia. Trabalhava para pagar as contas. Acordei, tomei um banho e segui com minha vida. Uma vida modesta, mas verdadeira. Daquele tipo de vidinha pela qual guardamos certa vaidade: longe do mundo e, ao mesmo tempo, preso nele.

Nada de novo em meu trabalho: uma empresa de porte médio no interior de São Paulo, onde a maioria dos colegas pertencia à classe baixa emergente. Uma classe para a qual o estudo foi possível graças ao descomunal esforço de seus pais. Uma porção de gente que tinha asco pelo Estado, pois este nunca lhes deu nada. Nunca garantiu o sustento e apenas permitiu uma decepção descontrolável.

Felizmente, esse tipo tão nato tem suas vantagens: são pessoas determinadas, que veem a vida sem qualquer fantasia. Sabem muito bem seu lugar e também que o mais importante, no final do dia, é ter um prato à mesa e a família reunida. Famílias sem grande poder monetário, mas com um profundo ressentimento pela negação da estética. Gente como a gente, no final das contas.

Geise era uma dessas mulheres que tiveram que lutar na vida. Mãe solteira, perdeu o marido em um assalto num sábado qualquer. Seu filho, João, tinha o nome mais comum de todos. Muitos sabiam que seu primogênito seria a definição de um homem simples. Sua mãe, apesar de carregar um nome quase vulgar, nada de pejorativo carregava em sua pessoa. Pelo contrário. Sua esperteza e determinação a levaram ao cargo de gerente de contabilidade.

Sabia muito bem que essas não eram as únicas características que impulsionaram seu sucesso. Tinha plena consciência de que sua beleza foi fundamental. Media cerca de 1,65 metro, morena de olhos verdes, uma especificidade. Sua roupa era justa, mas não vulgar, e sempre me fazia virar a cabeça assim que passava. Como disse, era um espécime raro, que entendia o mundo como ele é.

Soube desde sempre que o ambiente ficava melhor com ela, pois era bonita. Sabia que não precisaria estudar se não quisesse, e mesmo assim o fez. E adquiriu a total convicção de que, se não fosse linda, não teria conseguido sua posição na empresa em tão pouco tempo.

É bem verdade que o ambiente de trabalho fica mais agradável com mulheres bonitas ao redor e ela sabia disso. Conseguia utilizar suas vantagens com extrema destreza.


Confesso também que, muitas vezes, só fui ao trabalho por causa da danada. Almoçávamos juntos e falávamos sobre finanças de modo quase erudito. Talvez ela pensasse que eu estava impressionado com sua inteligência. Coitada, mal sabia que eu não prestava atenção em nada do que dizia e apenas observava seus lábios.

Justiça seja feita. Geise teria conseguido seu posto mesmo que fosse feia. Era uma boa profissional. Não excelente ou genial, mas acima da média. O que levou apenas dois anos poderia ter levado quatro ou seis, dependendo de seu grau de beleza. Mas chegaria lá. E, se não fosse dotada de boa aparência, talvez tivesse se empenhado em realizar uma boa pós-graduação. Não foi o caso, claro. Sejamos honestos! Ela era uma ótima funcionária.


No dia 12 de março de 2025, uma mulher tomou posse do cargo de Secretária de Relações Institucionais. Seu nome era Gleise e, como se pode perceber, as duas mulheres citadas aqui possuem nomes quase homônimos.

A problemática que segue não está no acontecimento em si (a nomeação), mas na fala do presidente ao lhe passar o cargo: ele cometeu o erro de chamá-la de bonita e correlacionar seu cargo à sua beleza!

Ao meu ver, dois equívocos seríssimos foram cometidos: o primeiro é que, mesmo sabendo que a beleza importa, nunca falamos isso. Deixamos essa verdade velada em nossa mente e apenas a deixamos escapar quando estamos entre amigos próximos.

Já o segundo erro, muito mais grave ao meu ver, diz respeito ao fato de que ela não era bonita. Era feia! Uma mentira contada sem qualquer verossimilhança com a realidade. Com toda a certeza, sua posição não foi outorgada devido à sua beleza. Talvez devido à sua lealdade, esta quase indiscutível — seja para o bem ou para o mal —, mas não por sua aparência. Era feia.

O motivo pelo qual essa notícia mereceu uma narrativa se deleita na inquietação que proporcionou à nossa Geise (a bonita).

Como disse, ela estava ciente de sua beleza e já passara por situações semelhantes. Situações que tratava com certo desdém em público, mas que, ao chegar em casa, a faziam abrir um sorriso ao lembrar.

Não havia votado no governo atual; na verdade, não havia votado. Não tinha qualquer simpatia pela política. Mas toda a situação, em si, lhe gerou um extremo desconforto.

Começou a refletir e pensar. Sem sossego, a ansiedade tomou conta de suas entranhas e subiu até seu pescoço. Sabia muito bem que Gleise não era bonita.

Sim! Talvez você tenha a impressão de que nossa personagem se afundaria em uma crise de consciência e se revoltaria por perceber que a beleza importa. Enganou-se severamente.

Como já enfatizado, Geise era linda. Sabia que era linda e agia como tal. Tinha total consciência de como usar seu dom a seu favor.

A única coisa que pensou foi:


"Olha só... essa daí, feia e ineficiente do jeito que é, foi chamada de bonita. Talvez seja por isso que conseguiu um alto cargo... Que merda... Eu podia estar em um lugar bem melhor..."

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