Diabetes e Viagra
- Luiz Borges
- 13 de mar.
- 5 min de leitura
Atualizado: 17 de mar.
Na grande cidade de Curitiba, morava um homem chamado Carlos.
Carlos já tinha seus sessenta anos quando eu o conheci. Tinha a postura curva, dentes frouxos e unhas com algum fungo, que as deixava esbranquiçadas. Não havia nada de extraordinário em sua vida. Poderíamos classificá-lo como o típico sujeito ignorante que teve alguma ascensão social e, por esse motivo, acreditava profundamente em sua superioridade perante os meros mortais. Dotado de uma arrogância sem respaldo, conseguiu formar uma família que, apesar de disfuncional, era a única coisa digna de um pouco de orgulho.
De todas as suas vaidades, a mais detestável era a tentativa vã de expressar uma opinião rasa de forma complexa. Faltava-lhe vocabulário e certa fluidez cognitiva. Porém, quando o assunto era sacanagem, o velho Carlos possuía uma eloquência invejável. Podia passar horas falando sobre o traseiro de uma moça ou sobre como transou com sua esposa na lua de mel.
Já embriagado pelo álcool, tinha o costume de dizer:
"Em minha lua de mel, choveu todos os dias. Eu quase fiz um filho nela, rapaz!"
Confesso que me simpatizava toda vez que ele dizia isso. Seu pequeno triunfo em uma vida de completa miséria. Era necessário se gabar. Acaso se lhe tirasse esse pequeno prazer, dentre os diversos desprazeres, o que sobraria? Sobraria sua mulher. Essa mesma mulher, que fora endeusada durante a lua de mel, era chutada para os cães no dia a dia.
Em nossa hora agendada semanalmente, ele sempre tentou me enganar. Nunca ousou falar a verdade. Nunca reconheceu seus temores de forma verbal. Todas as características de Carlos levavam a um adjetivo muito significativo para o ego de um homem: covardia. Toda vez que quiser ferir um autêntico espécime masculino, basta apelar para sua natureza primitiva, onde os despidos de coragem eram devorados. Sim! Um puro covarde! Aquele tipo de covarde com um ar de valente, que brigaria em um bar por estar rodeado de amigos, mas que, em um combate de cavaleiros, iria defecar nas calças. É desse tipo de gente que estou falando. Mas, se não fosse por sua personalidade, sua esposa não teria me procurado para consultá-lo e, assim, não teríamos essa bela história.
Seu trabalho era maçante. Com certo sufoco, conseguiu comprar um pequeno restaurante em uma região com certo pedigree. Não sabia administrar. Nada de novo acontecia nos anos que passavam. Era mais do mesmo. A mesmice que irrita. Apesar disso, seu pagamento era razoável. Com seu trabalho, conseguiu edificar uma casa e comprar um carro. Vivia endividado? Sim. Mas obteve certo conforto.
De todas as histórias que poderia contar sobre o sujeitinho, essa é, sem sombra de dúvida, a mais engraçada. Não tenho intenção de ser jocoso, mas a jocosidade crescerá por si só à medida que o leitor avançar no texto.
Fora sequestrado por uma prostituta!
Sim, você não leu errado. Carlos foi sequestrado por uma profissional do sexo. Uma acompanhante. Uma modelo. Ou, se preferir, uma prostituta barata. No entanto, para entendermos o clímax da história, precisaremos retroceder um pouco.
Como já dito, Carlos e sua esposa não eram um casal feliz. Nem de longe. Apesar de sempre contar vantagem sobre a lua de mel, sua vida sexual era monótona. Fato esse que comprovei quando perguntei a ele a frequência de suas relações:
"Por ora, tudo está bem! Minha esposa é um furacão! Já te contei sobre a lua de mel?"
Sua insistência no saudosismo revelava uma ferida aberta. Uma mácula. Por fim, eu tinha certeza de que ele não sentia uma boa carne fazia um bom tempo. Também não posso julgá-lo, pois é difícil manter uma ereção quando já se tem certa idade e é diabético. Sim. Diabético. Tinha dessas diabetes moderadas, que não limitam totalmente a alimentação, mas influenciam diretamente a circulação sanguínea no pênis. Dessa forma, seu martírio não era apenas mental, mas também físico. Pobre coitado! Castrado em todos os sentidos da existência. Quanta miséria em um sujeito só.
Sua esposa me contou a história um mês após o ocorrido. Tentarei aqui reproduzir o texto em toda a sua completude, mas, caso não consiga arrancar o riso do seu rosto, riso que tive ao ouvir, perdoe-me! Muitas vezes não conseguimos expressar a sonoridade e as expressões de uma boa conversa. Bom, vamos à história.
Em uma noite chuvosa de setembro, senhor Carlos decidiu que iria transar com sua esposa. Decisão unilateral, por assim dizer. Em seu ritual de preparo, primeiramente jantou, tomou seu Viagra e foi se banhar. Após o banho, saiu despido em direção ao quarto, local onde se encontrava a pobre mulher, vestida com um pijama comprido e bege. Com uma meia ereção, começou a tentar despir sua donzela, porém, sem sucesso, logo desistiu. Era óbvio que a situação não era favorável ao seu desejo e era também claro que ele não teria coragem de reverter a situação de uma forma mais incisiva. Nem para isso o sujeito servia.
Ainda com o pênis semiduro e com aquela vontade misturada com raiva e ansiedade, pensou, com sua cabeça já fora do lugar: "Vou arranjar uma puta!". Com a desculpa mais esfarrapada que podia se dar, disse à sua mulher:
"Preciso ir ao restaurante urgente. O alarme está tocando. Preciso desligá-lo."
Não conversaram sobre o assunto. Sua mulher sabia do que se tratava, mas, como esposa, não quis se intrometer. Caso se intrometesse, talvez acabasse levando um bofetão na cara. Preferiu se calar. Deitou-se em sua cama e, aos prantos, foi dormir.
Nosso querido senhor Carlos, por sua vez, pegou seu carro e foi à procura de diversão.
Aqui temos um ponto de dúvida. Não sabemos se ele usou o celular para procurar uma boa puta ou se foi direto à rua. Acredito na primeira hipótese, pois acabou indo à casa da acompanhante e foi surpreendido por dois sujeitos armados.
Quem diria que tudo isso iria acabar mal, não é mesmo?
Já despido e amarrado, a puta pegou a arma e gravou um vídeo. Um "vídeo sujo". Um vídeo que somente algumas pessoas mais próximas viram. A extorsão estava ocorrendo. Ou ele dava uma boa quantia em dinheiro, ou o vídeo era divulgado. Simples assim.
Obviamente, o sujeitinho deu o dinheiro. Um programa que sairia por 200, acabou saindo por 20.000,00. Imagino sua angústia. Se a autoestima não estava boa, imagine ser enganado por uma prostituta. Ser despido por uma prostituta e provavelmente molestado em vídeo por ela. Que vergonha! Mas pensa que nosso anti-herói teve essa vergonha? Não.
Voltou para sua morada na madrugada. Sem qualquer pudor, fez unicamente o que alguém covarde faria: mentiu. Mentiu por misericórdia. Misericórdia não por sua família, mas sim por si mesmo. Naquele momento, percebeu que havia feito algo para além do perdão.
Contou uma meia verdade. Descreveu o ocorrido sem muitos detalhes. Disse que fora assaltado e rendido. Contou sobre o vídeo dito sujo, mas nunca mencionou a prostituta.
Seus filhos acreditaram, pois não sabiam de todos os eventos que ocorreram antes da sua saída de casa. Sua mulher, no entanto, sabia exatamente o que tinha ocorrido. Sua certeza veio com o vídeo. Os bandidos mentiram para o senhor Carlos ao dizer que não divulgariam nada media à pagamento. Divulgaram mesmo assim. Tiveram certo senso de honra, pois não espalharam para o restante dos contatos salvos no celular e sim para o único contato salvo como "amor".
Por fim, sua mulher o perdoou, mas acabou me procurando em busca de alguma solução para o marido. Acredito piamente que a necessidade de um ouvido atento não era para ele, e sim para ela.
Passaram-se alguns meses desde o ocorrido. Marcos começou a faltar às sessões, mas, por algum motivo, convidou-me para um churrasco em sua casa. Nesse dia, havia tudo do bom e do melhor. A vulgaridade nunca foi disfarçada, mas a carne estava boa e a cerveja, gelada. Isso deve contar para algo, não é mesmo? Após algumas horas, ele me chamou para um canto e perguntou:
"Meu amigo, já te contei a história da minha lua de mel? Quase fiz um filho nela!"

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